domingo

Cardo Azedo



Nóis já deve munta grana
nas cantina do patrão,
i quanto mais nóis trabaia,
mais nóis tem a ceteza:
num vai dar pra pagá não!

Nóis já nem vai pra casa,
dorme nas prantação,
nas lona de alugué,
tudo cheim de buraco, -
inté dá pra vê o cé...
Si tem chuva nóis se móia,
si invez de chuva tem lua,
nóis lembra que a nossa lida
inté já foi mar bunita...

Nóis tem sardade da vida
que nóis tinha antigamente...
Nos sábos, era só viola...
tocá e cantá na fêra
alegranu os pessoá,
i os minino recoieno,
cheim de sastisfação,
os trocado que o povo
botava nas suas mão.

No finá da tardinha
a muié comprava o sá,
o fubá e a farínia,
i às veiz inté sobrava
uns quequé pra rapadura,
água de xêro i pinga
pra mó de "enchê as muringa".

No redó da tapera
nóis prantava mandioca
i ia viveno a vida,
qui num era muntio boa...
mar era bem mais filiz.

Agora, tan longe de casa,
nóis dorme nas prantação,
nas lona de alugué,
tudo cheim de buraco
por onde iscorre a chuva, -
água limpa pra bebê.
I si tem lua pra oiá
é soniá, soniá, soniá...
qui é só o qui nóis pode fazê
sem sê obrigadu a pagá...

Di sigunda a sigunda
é prantá i derribá cana
no fio dos nosso facão,
qui uns chama de pexêra
i uns ôtro di catana.

Inhantes do galo cantá
nóis já tá tudo de pé, -
hômi, criança, muié -,
ni dá tempo di rezá...
Mar Nosso Sinhô predôa
i sêmpi abençoa nóis tudo.
Nóis num reza mais nóis sônia,
cada sôniu tan munito
qu´inté parece uma reza...

As carça e as manga cumprida,
i ôtra brusa pru baixo,
proteção pru pescoço,
boné, duas meia furada,
i pano grosso na canela,
que Deus veve no cé,
i o diabo da peçonha
veve mermo aqui na terra;
i é priciso atenção
cum a escapada dos facão.

O só arriba dos quengo
i nóis imbaixo, no corte,...
Os mais forte ganhum mais,
intonce acá num é lugá
pra quem num tem braço forte.

Nóis semu o que pranta, o que cóie,
e tumém o qui queima i recóie, -
nóis semu os burro de carga
aqui dos canaviá.
Nóis nunca tem muntia iscôia...
Ô nóis morre de fome,
ô de tanto trabaiá.

Mar né praga do cé não,
pruque Deus nosso sinhô
nunca se aperreô
pro causo de nóis num tê tempo
pras reza do pensamento.
Di noite, nóis tudo cansado,
os corpo sentinu as dô,
nóis óia pelos buraco
as estrelinha brilhanu,
e sônia, sônia, sônia...
Pruquê nóis ainda sônia
cada sôniu tan munito
qu´ inté parece oração!
I sônia cum o qui quisé...
qu´in sôniu num tem patrão.

ju rigoni (2006)


9 Comentários


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9 comentários:

Janelas para o Mundo disse...

Belíssima e tocante poesia sobre uma realidade que, infelizmente, ainda pode ser encontrada no nosso país, o trabalho escravo. Quem já esteve frente a frente com essa realidade sabe o quão exata é esta descrição lírica.

Mikasmi disse...

Bonito poema.
O desepero de quem trabalha sem nada ver.
Minha amiga dizes as coisas de uma maneira muito bonita

Abraços

Daniela Figueiredo disse...

Oi, Ju. O sofrimento, dito em palavras tão simples, mas tão bonitas, nos faz ver esta tristeza com olhar de carinho. E esta é a realidade de muita gente, infelizmente.
Beijos.

SAM disse...

Ju, de bom grado incluirei o seu blog no grupo. Para isso vou ter que lhe pedir que me envie um email: phoenixadaeternum@gmail.com

Obrigado

André L. Soares disse...

Ju,...

EMOCIONANTE. ESPETACULAR!

O tema, o poema, a estrutura e, obviamente, a linguagem,... perfeitos.

A arte fica sempre mais real, quando se escolhe a linguagem adequada a cada contexto. Nisso você tem se mostrado magnífica.

Mas só pode fazer isso quem conhece, não é mesmo?

A meu ver, entre os artistas brasileiros que fazem da linguagem regional uma marca de seu trabalho, destaco: Rolando Boldrim, Saulo Laranjeiras e Elomar Figueira (esse último, indiscutivelmente, o melhor dos três).

A Globo tentou nos empurrar Lima Duarte, mas não funcionou - soava falso, pelo menos pra mim.

Agora eu insiro seu nome n esse rol, que de terceto, virou quarteto e evoluiu, por conta do importante adendo da figura feminina.

De minha parte, tenho dois ou três poemas em que faço uso da linguagem regional. Aprendi um pouco dessa expressão, conhecendo de perto o interior do país. Mas depois de ler seus textos perfeitos, confesso que ando acanhado de postá-los, porque já não me parecem tão bons.

Agora estou novamente - e sempre - em fase de aprendizagem: ando estudando a obra de Ju Rigoni, esssa escritora que passo a admirar mais, a cada texto seu que leio.

Não é rasgação de seda. É admiração a um bom trabalho!


Beijo, Poetisa!

Graza disse...

Amigos e Amigas

Se há uma coisa em que acredito é na pressão da opinião pública. Os governos, embora não pareça, já lhe vão atribuindo alguma importância. Os Movimentos de Cidadãos neste formato, a nível global, são relativamente recentes, mas já vão produzindo o seu efeito, editamos aqui muita bobagem porque isto é também um divertimento, mas somos da mesma forma capazes de fazer desta ferramenta uma arma apontada à indiferença. Cada blog tem os seus níveis de leitura e quantos mais conseguirmos trazer mais exponencial será o resultado final. O Sam que vive aqui em Portugal, conseguiu por o Brasil a liderar esta blogagem colectiva, seria interessante chegar mais longe e que a próxima atingisse todo o universo da Lusofonia, os CPLP, a Francofonia etc., etc. Resumindo, é preciso acreditar, amigos!

Um fraterno abraço a Todos e a Todas.

Nota: Este comentário foi enviado a todos os participantes, pela impossibilidade de fazer um específico a cada um de vocês.

Vanessa disse...

Oi, tb participei da blogagem e passei para conferir seu post. Que belo texto!

Abraço

Victor S. Gomez disse...

Oi amiga vim lhe agradecer por estar me seguindo, agora te sigo também. Abraços

Jorge Alberto disse...

Você é a Senhora das palavras. As domina, brinca, inventa, cria, recria, alimenta.