"E vendo e ouvindo esse campeiro tão íntimo da terra e da vida, tão iluminado pela sabedoria do coração... você compreenderá que o homem brasileiro é milagrosamente um só, de norte a sul, de leste a oeste, a despeito de todas as distâncias geográficas - um só no que possui de essencial: a cordialidade, o horror à violência, a capacidade de dar-se, e também de rir da vida, dos outros e de si mesmo." Érico Veríssimo
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segunda-feira
Receita da Hora...
Reune os ingredientes...
Soca-os,
mistura-os
à farinha de ossos...
Açucarado o sal,
tempera-os
e os deixa ao molho...
Assa-os,
lentamente...
Doura-os,
leva-os à mesa
farta
para comê-los
enquanto comem...
Serve-se,
enche o prato;
ora com a mão esquerda
ora com a mão direita,
espeta-os com o garfo,
corta-os com a faca cega.
Leva-os à boca...
...
Ainda que o cheiro
o sabor, a aparência,
incomodem,
mastiga-os,
engole-os,
digere-os...
Nutrido e forte,
ignora-os,
expulsa-os,
como às fezes...
ju rigoni (2002)
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domingo
Por-do-Sal...
.
.Manhãs... Reinícios...
Manhãs, reinícios...Manhas da esperança.
Mas... Para cada dia de sol
há um meio-dia, -
a luz estourando a cor da paisagem...
E aí,... já é tarde...
ju rigoni (1999)
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Sentencialismo
.
.
Sob o assédio de estranha culpa,na mente
tatua-se a tragédia do outro;
a dor que poderia ser minha ou sua...
Dor para a qual não há remédio...
ju rigoni (1998)
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sábado
Natá
Indé novembro
e o estômbo,
cheio de espaço e de ronco,
sente o xêro de dezembro...
Hummmm! Coisa mais boa!...
Pru mim e pru mínia famía
Nosso Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...
No Natá se come muntio,
todo mundo qué ajudá, -
o pobrema é os ôtro dia...
É só no Natá que nóis pode
enchê muntio bem as pança.
Nos ôtro dia do ano
nóis cata resto no lixo,
nóis come terra, rebôco,
nóis põe carqué coisa na boca,
e mastiga o que num tem,
que graças a Nosso Sinhô,
imaginaçaum num farta
i inté faz muntio bem
pro má de comida parca.
No Natá se come muntio,
graças a vige Maria
e o anjo anunciadô, -
graças a nosso sinhô!
As pança é só verme filiz...
As criança fica dioida
só de vê as comidada,
inda ganhum brinquedo, -
livrim, boneca, bola...
é uma aligria danada!
O pobrema dos minino
é qui eles num sabe brincá;
ganha os brinquedo em dezembro,
veve cum eles na boca,
e nem bem é feverêro
e já tudo comêrum!
O Natá é cumê bem
e rezá pra chegá vivo
no Natá do ano que vem...
Pru mim e pru mínia famía,
Nosso Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...
ju rigoni (1993)
imagem via net
Boas Festas e Feliz 2012!
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domingo
In(ter)venção
.
.
Na estética do momento
desaparece o sentimento...
Tempo de anestesias...
ju rigoni
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.
Na estética do momento
desaparece o sentimento...
Tempo de anestesias...
ju rigoni
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Modo de Fazer
.
.
Massa,... há massa;
mas nem sempre há pão.
Falta pensamento,
- miolo -,
coração...
Ingredientes
que, dizem,
distinguem bicho de gente.
Verba, - dinheiro -,
isto não falta, não!
Nem aqui
nem no estrangeiro.
Mas só há massa e pão
quando existe amor verdadeiro
pelo irmão, -
esse partilhar
capaz de dar mais sabor
e crocância
à casquinha fininha da vida...
ju rigoni (1982)
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.
Massa,... há massa;
mas nem sempre há pão.
Falta pensamento,
- miolo -,
coração...
Ingredientes
que, dizem,
distinguem bicho de gente.
Verba, - dinheiro -,
isto não falta, não!
Nem aqui
nem no estrangeiro.
Mas só há massa e pão
quando existe amor verdadeiro
pelo irmão, -
esse partilhar
capaz de dar mais sabor
e crocância
à casquinha fininha da vida...
ju rigoni (1982)
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Abstinência
Uma pausa aqui,
outra lá...
Tantas vírgulas
fora de lugar...
Respirar...
até o ponto final.
ju rigoni (2000)
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Sem (c)alma
.
.
Encurtam caminhos
os tais sujeitos...
Determinados,
querem passar de qualquer jeito!
Até que sejam passado
morto e enterrado...
ju rigoni (1996)
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.
Encurtam caminhos
os tais sujeitos...
Determinados,
querem passar de qualquer jeito!
Até que sejam passado
morto e enterrado...
ju rigoni (1996)
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Bastidor
A linha passa
pelo buraco de agulhas.
Penetra tecidos...
Marca caminhos,
e segue em frente...
e verso.
Até o nó, - o arre...
mate!
Rebordosa de laços...
ju rigoni (2007)
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Sabedoria
.
O que ocê tanto escreve
aí nesse paperzinho?
Inda tá fazeno versinho?
Inhacho mió que ocê
vá fazê u’a refeição...
Que a tar da poesia,
é perciso que se diga,
inté alimenta as alma
mar, ó...
num enche barriga!
ju rigoni (1987)
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O que ocê tanto escreve
aí nesse paperzinho?
Inda tá fazeno versinho?
Inhacho mió que ocê
vá fazê u’a refeição...
Que a tar da poesia,
é perciso que se diga,
inté alimenta as alma
mar, ó...
num enche barriga!
ju rigoni (1987)
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Nas Entranhas...
Tinha muita idade
quando aprendeu a ler...
Soletrando devagar,
silabando sem pressa,
sibilando nas singulares
curvas plurais,...
de repente,
destravou a tramela.
Descobrindo,
descobriu-se.
Fez-se portas, janelas,
sol, lua estrelas...
Finalmente, lia!?...
Tudo que agora
parecia mais fácil,
em verdade,
era tão difícil...
Por que às vezes
o que estava escrito
não era o que estava escrito?
Ler era tão bom
que até lhe fazia mal!?
Aos poucos,
bem devagarzinho,
foi entendendo que ler
era feito um caminho
cheio de trilhas, picadas,
desvios...
Como os tantos que ele abrira
quando suas mãos
ao invés de livros
seguravam a enxada.
Ler era mais,...
muito mais
do que imaginara...
Palavras
dentro de palavras;
palavras
entre palavras;
palavras
aninhadas em linhas
e entrelinhas.
Palavras que não se via!
Mas, lá estavam.
Feito mato mal capinado...
Parece estar morto.
mas, ainda enraizado,
rebrota, viçoso, forte,
do chão molhado.
Palavras se pareciam
com tanta gente que conhecia.
Se houvesse aprendido antes...
Inquietava-se...
Para ler como gostaria
seria preciso ler,
e ler,
e ler...
Até o infinito.
Sua curiosidade tão grande
não caberia no fiapo de vida
que lhe restava.
Talvez,
nem na eternidade...
ju rigoni (1988)
Foto obtida via net.
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Sol em Ré
Quando as bestas se juntam
para avivar as chamas do preconceito
não se reconhecem no animal irracional…
Encurralam-se em seus espelhos
para, em nome de uma pretensa moral
nutrida por seus maus costumes,
tentarem aniquilar
o sentido mais humano da palavra igual, -
aquele que deveria derramar-se
sobre todos os homens…
O igual que é também o diferente;
ponto de encontro divino,
capaz de transformar em amor
o que deveria ser nada mais
que um significado em oposição,…
um mero antônimo.
Palavras são usadas, sim.
Elas não agem sozinhas.
Há mentes a pensá-las
para todo e qualquer fim.
Mas palavra palavra
não tem preconceito, não.
Têm mais alma
que muitos homens…
Palavra!
ju rigoni (1997)
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Enxaquecas
.
.
Quando eles surgem,
lá longe,...
apago a luz.
Desligo tudo.
Desligo-me.
Não posso ouvir qualquer som.
No silêncio, na escuridão,
torturam-me...
Mas não me vencem...
ju rigoni (1998)
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.
Quando eles surgem,
lá longe,...
apago a luz.
Desligo tudo.
Desligo-me.
Não posso ouvir qualquer som.
No silêncio, na escuridão,
torturam-me...
Mas não me vencem...
ju rigoni (1998)
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Flor
Será flor...
ainda que murcha,
despetalada,
seca, -
ou pisada,
no mesmo chão
de onde brotou...
Ainda assim,...
será flor.
ju rigoni (1998)
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An?!...
Painho, na lida,
esburaca o chão,
enraíza esperas...
Diante do não,
cacteia...
Mainha, embuchada,
já está no caminho,
em busca de água...
No sal do suor
é carne de sol,
sob o azul de um céu
debochado,
cheinho de nuvens
gordinhas,
que nunca chovem...
O menino
esfarela à unha,
e leva à boca,
a rapa durinha
do barro das paredes
da pobre morada.
Barriga estufada,
tão esticadinha!,
aninhando vermes...
Menino-comida.
Pequeno que nasce
g r a n d e
na dor das faltas...
Como é ser criança?...
Ouviu falar,
mas não sabe dizer
o que é esperança...
- É de cumê?...
ju rigoni (1989)
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As Nuvens...
.
.
O pensamento me leva;
a imaginação me toma...
Racho lenha;
tiro fogo de pedra;
espanto os meus bichos;
desinvento a roda;
despetalo a rosa dos ventos;
crio asas e as distribuo;
ergo casa na árvore
e me enfio lá dentro,
feito bicho em toca pequena
escondido com o rabo de fora...
ju rigoni (1999)
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.
O pensamento me leva;
a imaginação me toma...
Racho lenha;
tiro fogo de pedra;
espanto os meus bichos;
desinvento a roda;
despetalo a rosa dos ventos;
crio asas e as distribuo;
ergo casa na árvore
e me enfio lá dentro,
feito bicho em toca pequena
escondido com o rabo de fora...
ju rigoni (1999)
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sábado
Sonho
Em português nada casto,
desgasto a língua, e voo para longe...
Em total liberdade, me afasto das regras
para ser o que sou, -
pedra
em meio a pedras.
Quisera ser a flor no caminho
dos pés descalços;
a inédita cor refletida em seus olhos, -
arremedo de janelas
onde se debruçam os sentimentos
Quisera ser
da sua alma o alimento...
Quisera...
arrancar de seus lábios o mesmo sorriso
que um dia antecedeu a descoberta...
Há tanta poesia na sabedoria
quanto no Conhecimento...
ju rigoni (1999)
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domingo
Refrão
Ao meio-dia,
o sol, solitário, -
sem dó maior -,
mergulha no solo...
No meio da noite,
o sanfoneiro
abre e fecha o fole.
Bufa notas em agonia
entoa a canção surgida
de erodidas almas...
No meio da tarde
do dia seguinte
já ninguém duvida;
amanhã será ontem...
ju rigoni (1987)
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Cozinha
.
.
Todo mundo faz assim.
Eu faço assado,
destemperado;
ou salgado,
excessivamente apimentado...
Ruim mesmo!
Há quem vomite,
e admito, -
haja estômago!...
ju rigoni (1997)
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.
Todo mundo faz assim.
Eu faço assado,
destemperado;
ou salgado,
excessivamente apimentado...
Ruim mesmo!
Há quem vomite,
e admito, -
haja estômago!...
ju rigoni (1997)
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Fase
Ando cansada
do quarto crescente
dos seus sorrisos
perdidos,
quase ausentes;
e da lua cheia
das suas vontades...
Em liberdade, aguardo
a discrição,
a seriedade da lua nova
que, de tão nua,
nem se vê...
ju rigoni (1997)
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