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domingo

Piuí!




Pedro ia andando pela linha do trem pensando na vida. À frente os personagens do seu dia-a-dia; Geraldo, Maria, José, Afonso, Zefa...

Por onde andaria a Zefa? Da última vez que a viu, estava lá, no bailinho de sábado, linda!, e sem se dar conta de quanto estrago sua beleza era capaz de causar. Os longos e ondulados cabelos caindo à cintura fininha do corpo bem talhado, firme, malhado pelo trabalho na roça, - que nem o das moças da cidade que, nos feriados, apareciam nas fazendas ao redor. "Eita cabocla danada de bonita, - pensava -, uma potranca! Mas, uma santinha..."

Agora pisava, um por um, os dormentes levantando, ora uma ora outra perna, como criança a pular amarelinha. Vez por outra estapeava-se ou gesticulava freneticamente para espantar os mosquitos que, ao entardecer, eram negras nuvens a deslocar-se pra lá e pra cá em busca de sangue, no mato alto ao pé da montanha que erguia-se ao lado da linha férrea.

- Plaft! - Bandidinhos... Vão picar a mãe! Plaft! Plaft!

Zefa, há muito, habitava-lhe os sonhos. Parecia uma Nossa Senhora! Tão linda, coberta por um manto azul, - olhar meigo, terno, cálido, - as palmas das mãos de onde saíam raios de luz viradas para ele como a dizer "Vem!". Bastava dormir para que ela lhe aparecesse, sempre assim. Geraldo seu melhor amigo, a quem contava todos os seus mais íntimos segredos, achava que ela aparecia-lhe como uma santa porque em sua mente sabia que era tão difícil ser notado por Zefa quanto ter atendido um pedido dirigido a qualquer divindade.

- Plaft! - Merda! Tô virando uma peneira. Plaft! Plaft!

Ele deixa a linha do trem em direção à auto-estrada, onde a maioria dos carros passa como se fosse levantar vôo. No acostamento, já arrebentado o capeamento fininho de asfalto, muito mato. Só mato.

- Plaft! Plaft! Ê sangue bão, esse meu... Plaft!

Cortando a pista asfaltada, uma estradinha de terra por onde ele vai se embrenhando e lembrando da Zefa, sob a trilha sonora de mosquitos que, agora vêm em nuvens cada vez mais densas. Tão densas quanto os cílios da amada. "Que pestanão!", ia ele pensando quando notou lá na frente um diferente amarfanhar de mato que, assim, na luz tênue que se configura entre a despedida do sol e a chegada da noite, pareceu-lhe ainda mais estranho.

- Plaft! Plaft!... Ai! Ui!... Plaft! Plaft!

Resolveu xeretar e meteu-se mato adentro a seguir a triha recém engendrada. Mais adiante seus olhos encontraram alguma coisa ou alguém deitado ao chão. "Virgem santíssima!", exclamou para si mesmo. "É gente! Tem gente caída ali no chão..." Antes que a noite chegasse em definitivo correu para vencer os poucos metros que o separavam do lugarejo onde morava e conseguir ajuda.

- Valha-me Nossa Senhora!... Plaft!

Tochas em punho, Pedro e os amigos retornaram o mais rápido possível ao local. Vasculharam tudo. O mato continuava lá, todo em desalinho, mas... Não havia ninguém. Nem mesmo os mosquitos. Nada. As pessoas olhavam-no como a um estranho, embora ele afirmasse a todo momento que fora ali que vira o corpo caído ao chão. Aos poucos, um a um, todos se retiraram. Sobraram apenas Pedro e o amigo Geraldo.

- Que é que te deu, ômi?
- Você também não acredita em mim?
- Cê é bem imaginoso, convenhamos... Vive sonhando... Tá sempre no mundo da lua.
- Eu não iria chamar todo mundo se não tivesse visto mesmo alguém ali. Bem aqui, ó! - Pedro deu três ou quatro passos e colocou-se exatamente no lugar onde estava antes o tal corpo.

- Homem ou mulher?
- O quê?...
- Essa pessoa pessoa caída ao chão que você viu, - era um homem ou uma mulher?
- Ih, sabe que eu não sei...

Geraldo olha mais desconfiado ainda para Pedro que reage imediatamente:

- Era quase noite! Naquele lusco-fusco... Eu vi a pessoa há alguns metros, não cheguei muito perto. Além de atordoado por causa das nuvens de mosquitos, tratei de correr para buscar ajuda.
- Tava vivo ou morto?
- Pois se acabei de dizer que não cheguei perto o suficiente... Como posso saber?... - Hummmm... - Que diabo de amigo é você que não acredita em mim?... -, resmungava Pedro enquanto tomavam o caminho de casa.
- Difícil, né?
- Cruz Credo, Geraldo! Vai ver que era alma do outro mundo... Vamos falar na minha Zefa, a minha santinha, que é bem melhor.
- Santa é a sua imaginação, meu amigo...

O trem apitou concordando com a declaração de Geraldo.

Não muito longe dali, Zefa ofegava, correndo pelo acostamento. As mãos, que nos sonhos de Pedro o convidavam, agora apertavam as de um outro alguém que namorava em segredo, e que sua família odiava tanto que era preciso vê-lo às escondidas. Hoje, inclusive, Zefa demorara muito e ele, que andara bebendo umas e outras, adormecera no mato, esperando-a.

Novamente o apito do trem vindo de lá, bem longe...

ju rigoni (sem registro de data)

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Catuca



- Então a senhora também estava entre os frequentadores do Catuca?
- É sim sinhô, dotô.
- E onde é que fica esse antro?...
- Esse o quê, dotô?...
- Esse Catuca! Onde fica?
- É bem ali, na Praça, pertinho do metrô...
- Sei...
- ...Tem uma portinha onde nóis entra e dá de cara com uma escada compriiiida... O Catuca fica lá em cima.
- Sei... E você não acha que aquilo não é lugar para senhoras?!
- O que é que o sinhô tá pensano, dotô? O Catuca é um lugar de munto respeito!
- ... Muuuito respeito!
- Maisi é!... Lá é tudo munto certinho, sabe? Tem inté segurança... O Monstrinho e o Tião Machadinha tão sempre fazeno a porta do Catuca. Lá, num entra carqué um não sinhô... Tô lhe dizeno: o cavalhêro pra entrá lá tem que passar por aqueles dois, - e eles óia tudo. Manda tirar sapato, meia, óia dentro das cueca, - às veis óia inté os furingo!!

A gargalhada é geral.

- Uai, mas do que tão rino?...
- Senta aí, Maria. Vamos conversar... Então, você acha mesmo que um lugar onde os freqüentadores são obrigados a tirar a roupa para provar que não estão armados, ou portando drogas, é um lugar de respeito? Você não acha estranho, isso? Se o tal Catuca fosse assim um lugar tão bom...
- Ah, já entendi! Porque eu sou pobre, o senhor tá achano que eu sou burra, né mermo?
- Não foi isso que eu disse.
- O sinhô acredita mermo que um lugá onde só vai pessoas pobre, sem grana assim feito eu, - pretinhos retinto, assim feito eu -, que não pude estudá, tem alguma coisa de parecido com esses lugá que rico vai pra bebê e dançá?
- Não foi isso que eu quis dizer...
- Dotô, pobre quano "dança" tá morto. Pobre só dança feito rico em baile fanqui e em quadra de escola-de-samba. Dança tumém quando a puliça tá atirano nas perna dele...

O distrito é sacudido por mais gargalhadas.

- Ói dotô, no resto do mundo eu num sei porque eu vim cum minha mãe, do interiô, inda minina, e só cunheço o Boréu, o Morro da Formiga, o dos Macacos, o do Juramentinho, a Rocinha, onde mora um tio meu, e o Buraco Quente... - nunca saí daqui. E aqui, o sinhô sabe: juntô meia dúzia de pobre preto, já tão ligano pro disque-denúncia. E, com todo o respeito dotô, a puliça não tá pra brincadêra, não! Primeiro atira, dispois pergunta. Se arguém morrer, foi bala perdida, ou foi nóis que atirô.
- As coisas não são bem assim como você está dizendo...
- As veis é pior...
- Qual é o seu nome todo, Maria?
- Maria da Conceição Silva, mas todo mundo me chama de Maria Resorve.

Mais gargalhadas.

- Maria Resolve? Por que... Resolve?
- Dizem que o meu bico é pra lá de melado... Que eu levo todo mundo na cunversa... E quano num dianta... Eu dô meu jeito de aresorvê as parada. Fazê o quê?
- Sei... Resolver, assim, como você resolveu lá no Catuca...
- Eu tenho que me cuidá, dotô! Que ninguém pense que porque sou mulé, pobre e preta eu dô mole pra marmanjo, não. Mar num dô mermo! Num sô de levá desaforo pra casa.
- Não é você mesma quem diz que o Catuca é um lugar tranquilo, de respeito; ninguém entra armado; que o Monstrinho e o Tião Machadinha etc e tal?... Eles não revistam as mulheres?
- Tá bão, dotô... Eles revista as dama. Mas é que eu já vô no Catuca faz um tempão... Eles me cunhece. Sabe quem eu sô. Sabe que eu sô de boa paz...
- De boa paz? E o que é isto aqui?
- Meu canivete sim sinhô, dotô.
- E isto aqui, Maria?
- Meu três-oitinho sim sinhô, dotô.

Mais gargalhadas...

- Oito pessoas no Souza Aguiar - duas com ferimentos a bala e uma com o supercílio cortado por caco de garrafa, três presuntos fatiados a canivete, um tiroteio de fazer inveja a qualquer país em guerra, e quem começou tudo isto?...
- Fui eu sim sinhô, dotô. O sinhô pode liberá o Mata-Cavalo, o Rabo-de-Arraia, o Navalhinha e o Fica Frio que a curpa é toda minha.
- Sei...
- ...Eles só queria me dá cobertura pra eu pudê fazê os serviço direitinho nos cavalhêro que me apurrinhô. Eles biliscarum minha bunda, ficarum dizeno que eu era a negona do rabo grande e eu fui bebeno,... bebeno,... e o sangue foi subino,... subino pra minha cabeça...
- Sei...
- E aí,... o sinhô sabe como é... Minha bunda é mermo munto grande mar, quano saio, num posso largá ela em casa... (Mais gargalhadas...) Eles tava falano um monte de merda pra mim. E num se pode fazê fritada sem quebrá os ovo, né mermo? Mas isso num é mutivo pra fechá o Catuca não, dotô... Me prende, mas num fecha o Catuca, não. Se o sinhô fechá o Catuca metade dos meus amigo vai ficá sem trabaio. E os ôtro, num vai ter um lugá sério pra se distraí... Eu num tô mintino. O Catuca - eu juro! - é um lugá de munto respeito... O sinhô vai lá carqué dia desses e dispois me diz...

ju rigoni (Nov/1999)


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quinta-feira

Piuí!




Pedro ia andando pela linha do trem pensando na vida. À frente os personagens do seu dia-a-dia. Geraldo, Maria, José, Afonso, Zefa...

Por onde andaria a Zefa? Da última vez que a viu, estava lá, no bailinho de sábado, linda!, e sem se dar conta de quanto estrago sua beleza era capaz de causar. Os longos e ondulados cabelos caindo à cintura fininha do corpo bem talhado, firme, malhado pelo trabalho na roça, - que nem o das moças da cidade que, nos feriados, apareciam nas fazendas ao redor. "Eita cabocla danada de bonita, - pensava -, uma potranca! Mas, uma santinha..."

Agora pisava, um por um, os dormentes, levantando ora uma, ora outra perna, como criança a pular amarelinha. Vez por outra espantava com as mãos os mosquitos que, ao entardecer, eram negras nuvens a deslocar-se pra lá e pra cá em busca de sangue, no mato alto ao pé da montanha que erguia-se ao lado da linha férrea.

- Plaft! - Bandidinhos... Vão picar a mãe!
- Plaft! Plaft!

Zefa, há muito, habitava-lhe os sonhos. Parecia uma Nossa Senhora! Tão linda, coberta por um manto azul, o olhar meigo, terno, cálido, - as palmas das mãos de onde saíam raios de luz, viradas para ele como a dizer "Vem!". Bastava dormir para que ela lhe aparecesse, sempre assim. Geraldo seu melhor amigo, a quem contava todos os seus mais íntimos segredos, achava que ela aparecia-lhe como uma santa, porque em sua mente sabia que era tão difícil ser notado por Zefa quanto ter atendido um pedido qualquer dirigido a uma divindade.

- Plaft! - Merda! Tô virando uma peneira. Plaft! Plaft! Plaft!

Ele deixa a linha do trem em direção à auto-estrada onde a maioria dos carros passa como se fossem levantar vôo. No acostamento, já arrebentando o capeamento fininho do asfalto, muito mato. Só mato.

- Plaft! Plaft! Plaft!
- Ê sangue bão, esse meu...
- Plaft!

Cortando a pista asfaltada, uma estradinha de terra por onde ele vai se embrenhando. Vai pensando na Zefa sob a trilha sonora de mosquitos que, agora vêm em nuvens cada vez mais densas. Tão densas quanto os cílios da amada. "Que pestanão!", ia ele pensando quando notou lá na frente um diferente amarfanhar de mato que, assim, na luz tênue que se configura entre a despedida do sol e a chegada da noite, pareceu-lhe ainda mais estranho.

- Plaft! Plaft! Plaft!
- Ai! Ui!
- Plaft! Plaft! Plaft!

Resolveu xeretar e meteu-se mato adentro a seguir a triha recém engendrada. Mais adiante seus olhos encontraram alguma coisa ou alguém deitado ao chão. "Virgem santíssima!", exclamou para si mesmo. "É gente! Tem gente caída ali no chão..." Antes que a noite chegasse em definitivo ele correu para vencer os poucos metros que o separavam do lugarejo onde morava e conseguir ajuda.

- Valha-me Nossa Senhora!
- Plaft!

Tochas em punho, Pedro e os amigos retornaram o mais rápido possível ao local. Vasculharam tudo. O mato continuava lá, todo em desalinho, mas... Não havia ninguém. Nem mesmo os mosquitos. Nada. As pessoas olhavam-no como a um estranho, embora ele afirmasse a todo momento que fora ali que vira o corpo caído ao chão. Aos poucos, um a um, todos se retiraram. Sobraram apenas Pedro e o amigo Geraldo.

- Que é que te deu, ômi?
- Você também não acredita em mim?
- Cê é bem imaginoso, convenhamos... Vive sonhando... Tá sempre no mundo da lua.
- Eu não iria chamar todo mundo se não tivesse visto mesmo alguém ali. Bem aqui, ó!
- Pedro deu três ou quatro passos e colocou-se exatamente no lugar onde estava antes o tal corpo.
- Homem ou mulher?
- O quê?
- Essa pessoa pessoa caída ao chão que você viu era um homem ou uma mulher?
- Ih, sabe que eu não sei...

Geraldo olha mais desconfiado ainda para Pedro que reage imediatamente:

- Já era quase noite. Naquele lusco-fusco... eu vi a pessoa há alguns metros, não cheguei muito perto. Além de atordoado por causa das nuvens de mosquitos, tratei de correr para buscar ajuda.
- Tava vivo ou morto?
- Pois se acabei de dizer que não cheguei perto o suficiente... como posso saber?... - Hummmm... - Que diabo de amigo é você que não acredita em mim?... -, resmungava Pedro enquanto tomavam o caminho de casa.
- Difícil, né?
- Cruz Credo, Geraldo! Vai ver que era alma do outro mundo... Vamos falar na minha Zefa, a minha santinha, que é bem melhor.
- Santa é a sua imaginação, meu amigo...

O trem apitou concordando com a declaração de Geraldo.

Não muito longe dali, Zefa ofegava correndo pelo acostamento. As mãos que, nos sonhos de Pedro convidavam-no, agora apertavam as de um outro alguém que namorava em segredo, e que sua família odiava tanto que era preciso vê-lo às escondidas. Hoje, inclusive, Zefa demorara muito e ele, que andara bebendo umas e outras, adormecera no mato esperando-a.

Novamente o apito do trem vindo de lá, bem longe...

ju rigoni (sem registro de data)


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sábado

A Rezadeira




- O que é que eu coso?...
- Nervo torcido, osso quebrado...
- bzz, bzz, bzz, - murmura a rezadeira sem que se possa distinguir qualquer palavra da oração salvadora, exceto a pergunta repetida inúmeras vezes. Enquanto reza, vai costurando com agulha e linha, - pontos aleatórios -, um pedaço de tecido bem branquinho.

Quando termina a oração deposita o tal paninho aos pés da imagem de São Jorge, a maior no oratório onde também estão, além de outras imagens, um copo com água e duas velas acesas. Orienta a mãe do menino a trazê-lo por mais dois dias. Segundo ela, são necessários três para que a reza surta algum efeito.

- Quanto é?
- Nada não, filha. Vai com Deus!
- Brigada, Dona Mariazinha, - diz a mulher agarrando e beijando-lhe uma das mãos.
- Pede a bença pra ela, Joãozinho!
- Bença d. Mariazinha?
- Deus abençôe ocê, meu menino, diz ela afagando a criança.

Mariazinha, os cabelos branquinhos e começando a rarear, acompanha os dois até o portão e se assusta com a quantidade de pessoas que ainda fazem fila em frente a casa.

- Vô atendê só mais dois. Ave Maria! Hoje num dá mais não. Tô cansada...

Ouve-se um certo burburinho de decepção, mas a palavra de Mariazinha é lei. E ela nunca abre exceções, a não ser para casos graves.

Contam que Mariazinha é medium-ouvinte. Além de rezar, ela muitas vezes prescreve o que "ouve": remédios feitos à base de ervas, raízes, cascas de árvores, sementes e todo um arsenal colocado à sua disposição pela natureza.

Ganhou fama quando um político muito conhecido, desenganado por médicos brasileiros e estrangeiros, veio até ela.

- ... dia, meu filho. Por que veio me procurar?
- Um tumor que cresce desenfreadamente e já tem o tamanho de uma maçã.
- Onde é que tá isso, meu filho?
- Exatamente aqui. Se a senhora colocar as mãos vai senti-lo em meio as costelas.

Mariazinha faz ligeira pressão sobre o lugar indicado e, quase que imediatamente, parece entrar num transe.

- A senhora pode senti-lo?
- Sssssss! - fez Mariazinha, olhos semicerrados, prestando muita atenção a alguém que ele não podia ver ou escutar.

Mariazinha fica assim durante uns dez minutos. Depois, bocejando, e com jeito de quem está extremamente cansada:

- Ô meu filho, você esquenta muito a cabeça... Num pode ser assim não, sabe?
- É a vida, d. Mariazinha... Mas... e então? A senhora tem algum remédio pra mim? A senhora acha que eu ainda saio dessa?...
- Depende mais docê do que de mim. Cê quer sair dessa?
- Que pergunta! Rodei o mundo antes de chegar até aqui.
- É... É assim mesmo. Todo mundo passa a vida procurando coisa que tá sempre mais perto do que a gente imagina.
- E então?...
- Cê é mesmo nervoso, hein... Olha, por hoje é só isso. Cê vai voltar a mim daqui a exatamente sete dias. Só então vou ter o seu remedinho pronto.
- Será impossível. Há uma cirurgia já marcada para segunda-feira. Eles vão abrir e extirpar o tumor.
- Não vão não. Se você operar antes, meu remédio não terá qualquer efeito.

O homem parecia estupefato. Uma mulher humilde, sem instrução, morando no meio do mato, falava-lhe com tal autoridade!... O que lhe dava tanta certeza? Como podia ela achar que o seu "remedinho" faria por ele o que os maiores especialistas do mundo não conseguiram? Que pessoa era aquela? Pediu a conta antes de despedir-se.

- Num é nada não, meu filho. Vai com Deus!

...

- Eu estou doido, - disse à esposa quando entrou no carro. Não sei como deixei que você me convencesse a vir até aqui...
E a mulher cheia de fé:
- Ela pode ser simplória, mas dizem que seus remédios são poderosos.

Sete dias mais tarde, e contra todas as previsões, o homem voltou. Mariazinha entregou a ele um vidrinho contendo um líquido escuro e disse-lhe que tomasse 4 gotas num pouco de água, sempre depois das refeições, durante dez dias. O homem queria que d.Mariazinha colocasse de novo a mão sobre o local onde estava o tumor para ver como havia crescido nos últimos dias. Mas a mulher não demonstrou o menor interesse. Disse-lhe apenas:

- Vá para casa e, hoje à noite, tome a primeira dose.

Contam que, quinze dias depois, quando o homem foi examinado o espanto foi geral. O tumor não estava mais lá. Ele fez e refez exames porque até mesmo os médicos não conseguiam crer no que havia acontecido.

Desde então, dona Mariazinha perdeu o sossego. Nunca mais descansou. Além das consultas, das rezas, sempre havia aqueles jornalistas chatos que ela botava a correr de vassoura nas mãos.

ju rigoni (sem registro de data)


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domingo

O Chão Que Nos Protege...




a morte, o destino,
- tudo estava fora de lugar.
Eu vivo pra consertar".
(Geraldo Vandré e Théo de Barros - "Disparada")



Era só um pontinho branco lá longe, na estrada improvisada que Pedro olhava sem nenhum interesse. O árido ao redor há muito estava nele. O chão duro, tão fissurado quanto as paredes que as crianças – quatro meninos e cinco meninas entre os dois e os doze anos -, futucavam com as pontas dos dedos quase sem unhas buscando o que levar ao paladar, tinha a cor da sua pele empoeirada. Ou era o contrário… Tanto fazia! Sol no quengo, sem qualquer ânimo, e quase viciosamente, que aqui não havia mesmo muito o que fazer num dia pela metade, Pedro voltou a olhar em direção ao caminho. O que era um pontinho branco tomava a forma de um homem…

- ‘bora entrá, mininos.
- ‘gora não, painho…
- Já-já, que é-vem estrangêro!…

As crianças descalças, os pés ainda mais ressequidos que os frágeis corpinhos, vestindo trapos que mainha ganhou do beato pra mais de cinco anos, trataram de adentrar o casebre. As gotas que escorriam agora pela testa de Pedro eram um evento. Há que beber para verter tanto suor. Pedro olhou mais uma vez para a estrada. “Di hoje num passa”, pensava.

O estrangeiro, um despudorado mercador árabe perdido na poeira de um lugar totalmente estranho, vinha chegando. Calça e camisa outrora brancas, suspensórios de couro poído, o chapéu de palha surrado em uma das mãos, e o lenço branco na outra a limpar a laminha do suor com a poeira do caminho.

- ‘dia, zêo Bêdra!
- ‘dia, turco!
- vaz galor, ãn?…
- Verdadi! Tá muntio quenti, sim, sêo Tuffic…
- Duffic vem bra zabe resbosta zinhô Bêdra.
- Já imaginava…
- Zinhô Bêdra benza brobosta Duffic?
- É-vem o sinhô qu’essa indecênça…
- Non… Duffic vaz brobosta zêrio! Duffic bêzoa zêrio. Nunga Duffic vaz brobosta num bresta bra zêo Bêdra!
- Minia rerposta pro sinhô é não. Pódi tomá di vorta o seu rumo.
- Non, zêo Bedra. Duffic non anda dando dembo no esdrada bra berde o viaje. Zêo Bedra aja bôga dinêra? Duffic vaz novo overta. Duffic dá dobro gue Duffic gombina.

Pedro ficou mudo por alguns instantes. Era muito dinheiro. Não havia o que comer. O que beber. O que plantar. Nenhuma frente de trabalho pra garantir a falta de chuva. Muita boca faminta. E Joana embuchada de novo… Mas o beato disse: isso é pecado!

- Não, sêo Tuffic. Mínia rerposta é não.
- Zinhô Bedra gon dúvida, eh?… Brobosta Duffic mundo bôa. Zinhô Bêdra benza mêlho. Vai vê ninguém vaz overta mêlho. Duffic dá dinêra Zinhô Bêdra agôra. Onde Zinhô Bêdra arranja dinêra grande azin? Zinhô Bêdra benza. Disbois Duffic ba’imbora, Zinhô Bêdra arrebende…
- Arrependo não, sêo Tuffic. Num confio naquele ispanhol…
- Zinhô Bêdra deja ebanôl gon Duffic. Duffic garande môza bem dratada. Môza dem gomida, bebida, rôba bonita, mundo jóia, mundo berfume. Môza dem gaza boa, môza dem esgôla… Zinhô Bedra nem gonheze môza disbois Duffic endrega môza ebanôl.
- …entregá a minina? Joana num me pérdôa não, num sabe?
- Aaaah! Endon, broblema dona zoana… Ma gon dinêra Duffic, zinhô Bêdra dá um vida mêlho bra dona zoana. Zinhô Bedra vêcha negôzio Duffic, melhôra vida menina, melhôra vida dona zoana, melhôra vida vamília dôdo!!!
- Não, sêo Tuffic! Faç’isso não! Nem é perciso. O hômi da télevisão prometeu que vorta. E dispois que ele vai imbora sempre vem muntia comida, bebida, rôpa, sapato…
- Ômi do delevisón, enh?… Guandu dembo ela non vem gá? Ômi do televisón vem gandu brecisa goisa driste bonita bra bazá no televisón. Bra mexe no gabeza da bôvo. Bra gânha brêmio. O fome vamília Zinhô Bêdra num esbera nezezidade ômi do televisón.
- Dianta não, sêo Tuffic, pode encontrá o camínio de casa…
- A Zinhô Bêdra dem zeteza?…
- O deputado também prometeu ajudá nóis. Diz que vai mandá o caminhão cum comida pra toda a rente do lugar.
- Debudada, enh?… Debudada vaz bromeza zô no eleizon. Bra guê debudada vai ajuda eze gente disbois? Disbois debudada ganha eleizon, debudada esqueze êze gente. Borguê debudada breziza êze gente prózima eleizón, enh? Êze gente vica rica non breciza mais debudada. A zinhô Bêdra já benza nizo?
- Me convenceu não esse seu cunversê, viu seu Turco?
- Duffic amiga zinhô Bêdra, anh? Guen avisa ê amigo, anh?…
- Sêo Tuffic já tá na sua hora. é bom o senhor pegá a estrada, num sabe?
- A Zinhô Bêdra den zeteza?…


Coisa linda de se ver o que o por do sol pinta no céu do final da tarde por aqui. Um luxo a revelar as riquezas do encontro do vermelho com o vermelho. Pode o chão refletir o céu? Onde a linha do horizonte?

O azul desbotado do vestido de Joana já despontava no caminho. Vinha no passo de sempre. Sem pressa, que nem havia porque ter pressa e era preciso cuidado com o que trazia ao ventre e à cabeça.

- Mainha! -, como em todos os dias, as crianças correram ao seu encontro.
- Painho?…
- Tá não, mainha.

Joana alivia a cabeça depositando no chão o vasilhame disforme cheio de um líquido turvo, de cheiro estranho, e as crianças, ávidas, correm com as mãos em conchas para ele.

- Carma! Muntio cuidiado, criança! Vá pegá as caneca, Zé. Tem que durá dois dia ess’água. Painho foi donde?
- Sei não, mainha. Mandô nóis entrá quando o Turco tava cheganu…
Joana sente um arrepio correr-lhe a espinha. Os olhos cansados, num rosto mais erodido que o chão, conferem filho por filho.

- Jesus, óbrigada!
- Foi o quê, mainha?
- Nada não.

Levanta fervura na lata sobre o fogão improvisado a água misturada ao estranho sal, onde Joana vai jogar a baga espinhosa de cactus que aprendeu com a avó a preparar desse jeito, – ração de dias infindáveis que merece oração de agradecimento em meio à escuridão, só amenizada pela luz da lua a penetrar o arremedo de janela.

À exceção de Joana, todos dormiam quando Pedro entrou sorrateiramente com a rede embolada debaixo do braço. E se os olhos não enganavam a mulher, era dinheiro – muito dinheiro – que ela estava vendo Pedro colocar sobre a mesa tosca, humilde.

- Que dinhêro é esse, Pedro? Tava’dondi, ômi di Deus?
- Cavanu, mulé. Pra enterrá di vêis nossa apérreação.
- Jésuz! Fez o quê, ômi?…
- Vá durmi, vá Joana!

ju rigoni (sem registro de data)




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