Mostrando postagens com marcador Cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cultura. Mostrar todas as postagens

sábado

No Susto...




... num cabe dentro du zóio
qui Nosso Sinhô mi deu...
É coisa di assustá!
Dá pra metê pur lá,
dentro do tar de mar,
todo açude qu'io cunheço,
todos rio qu'ieu vi
pur todo o caminho que fiz
pra chegá inté ali.

Can'ieu vortá pra casa,
i contá tud'iss'aí,
ninguém vai'creditá n'eu...
vão pensá: Maluqueceu!

Falano bem a verdade,
ni eu tô creditano,...
ind'acho qui tô sonhano!...

As coisa nesse mundão
tão mesmo toda errada...
Iera tanta rente rica,
fromosa e alimentada,
andano pel's carçada...
Rente correnu tumém, -
eles córri todo dia,
só num sei atrás di quê?...
só num vi atrás di quem...
Tem uns carro muim munito,
uns armazem infeitado,
cum nome de supermercado,
- tan grandi feito o tar mar -
onde se vende di tudo!...
Ah, s'ieu tinha um trocado!...

Ói, can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Derde cano lá cheguei
qui num parô di chuvê...
Tô moiado inté a arma!...
Ô meu santinho amado,
cano ocê mandá água
presse povo infatiotado,
manda tumém pru ôtro lado!...

Transantônti, miô padrinho
me levô pr'andá num trem
isquisito como só...
Trem danad'i bonito!...
Corre dibaxo da terra,
qui nem qui bix'assustado, -
ieu nunca andei num anssim,
tan macio i'istabanado!

In casa di miô padrinho,
tem uma talevisão
qui inguá io nunca vi!...
Num é qui nem a da igreja
de lá di adonde eu narsci...
Ocê só tem que apretá
um tar di... di... contrô remó!...
Ocê fica sentadinho,
sem saí do seu lugá,
apretano us botãozinho
pra inscolhê os caná.
Tanto apretei os botão
que as geringonça quebrô, -
a talevisão i u contrô.

Ói, can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Mar num é só isso, nãão!...
A bixa tem um filhote
pur nome di com puta dô...
Ui, qui nome mais feio!
Miô padrim m'insinô
qui é mió qui o talifone
(que acá num carece fio!...)
I num é qui ele vê cum quem fala!...
I fala cu's mund'todim, -
inté dondi as vista num arcança -,
abancado nos macio?!...

Mar num é só isso nãão!...
Dispois qui ele catucou
os botão c'uas letrinha,
de repente, pareceu
nas talevisão do bixo
uas muié porreta, -
mar bunita nunca vi! -
do jeito qui vier'u mundo...
as cara lavada e safada,
mostrano bunda i feofó,
fazeno coisa cus hômi...
Tinha hômi cum hômi, -
inté muié cum muié!...
I padrinho se rino di mim...
Fiquei mar'ssanhadinho
qui cano, nas sexta-fera,
vô c'us amigo da fêra
vê as minina da Guimba!...

Ói, can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Mar o qui mar mi assustô, -
o maió dos milagre -,
io vô contá ié agora...

Cano cheguei por lá,
padrinho mar madrinha
fôro buscá ieu
na tar de rondoviária.
Madrinha, tan arrumadinha,
mar dava pra rente notá
qui o tempo passô i amassô
a cara da coitadinha,
ieu pensei:
Tadinha da minha santinha!...
já tá ficanu veinha...

Pois num é que adispois
qu'iela foi num tar dotô,
- io vi; ninguém mi contô! -
a madrinha'pareceu
qui nem qui u'a mocinha!...
Us nariz mu'irrebitado,
as cara mu'isticadinha
as bochecha nos lugá...
S'ieu num ficava vexado
ia preguntá praiela
si vortô a sê donzela?!...

Inté falei pu padrinho:
Ma'isso num é um dotô,
é um santo milagrêro!
Padrinho, pur Jésuz Cristinho,
me dê só um cadinho
da sua sorte tan grande!...
Perciso sabê o nome
desse hôme abençoado,
fazê uas oraçãozinha
prêsse santinho arretado.
Quem sabe se iô rezá,
quano ieu vortá pra lá,
pra minha Maria Morena,
incontro ela mar lisinha,
anssim, qui nem qui a madrinha?!...

I u padrinho i a madrinha
ficaro se rino di mim...
Riro tanto,... i riro tanto,...
dero tanta gargaiada,
qui fiquei incafifado...
Ieu lá, pensano in santo,...
i vai vê qui u tar incanto
ni é coisa dos sagrado!...
Podi ser arma vendida
praquel'qui num falo u nome...

Tratei de juntá minhas troxa,
i mi botá na istrada...
Ficá anssim a'arcance
dos chifre do coisa ruim?...
Ninguém vai tirá di mim
a aligria di espaiá
no lugá adonde moro
tod'essas coisa istranha,
qui passô pelos meu zóio!

Ói, tô dioido pra chegá!
Dioidinho prá contá!
Mar já sei qui can'ieu contá,
ninguém vai mi creditá...

Falano bem a verdade,
ni'eu tô'creditano...
ind'acho qui tô sonhano!...

ju rigoni (sem registro de data)


2 Comentários



Visite também Fundo de Mim II

domingo

Tesouros



Sem rigidez, sem concretos,
sem qualquer contaminação,
o erigir da palavra
matutada em pensamentos,
tostada ao sol inclemente,
harmoniosamente mutilada...

Nessa palavra simples
que o coração compreende
repousam lições
que a razão não aprende...
Verdades brutas, sem trato,
escritas em sulcos profundos
no seco da pele e do chão.

Só não é seca a esperança
que brota do sofrimento,
e a palavra do letrado...
embasbacado,
maravilhado,
diante do inusitado
de um paraíso ao avesso,
que tem na oração o abrigo,
e na música, na poesia...
a mais fiel companhia.

(Poetas e cantadores,
cuidado!
Apontam-nos como culpados,
cruéis exploradores
do chão não irrigado...)

Meu Deus, que melodia!...
Quanta harmonia!...
Quanta beleza pode haver
nesse cantar da palavra,
nesse falar diferente,
nesse correr devagar
que é a vida dessa gente
que não tem com quem contar...
Quanta incoerência!...

É mesmo divina
a providência do impossível
que brota
do impensável possível...


ju rigoni (1982)

Visite também  Fundo de Mim II.



1 Comentários

quarta-feira

Lição





... tá a muié recramando
do lugá onde nóis mora...
cumo se nóis pudesse,
argum dia, i simbora!

- Zé, isso num é vida,
nem pra nóis
nem prus minino.
Lá, na cidade grande,
nóis ia tê ôtro distino.

Fico muntio aperreado
cum toda essa falação,
às vêis inté penso inhí,
mas acho que passô da hora...

Só vejo rente vortano
cum as mão abanano,
e beijano o chão
que um dia abandonarum.

Só vejo rente falano
das dificurdade que é
tentá vivê nas cidade.

Acá tudé muntio difírce,
mar é um chão cunhecido,
as vêis nóis num come bem,
mar tumém num passa fome,
que famía grande nóis tem.

Quano a coisa aperta
nóis come na casa dum irmão,
onde sempre há de tê o fubá
prum angú bem ralinho,
ô um cardinho carqué.

Si nóis vamo pra cidade
i as coisa fica preta,
quem nóis vai procurá?...
Hein? Hein?...
Quem?
Prá lá, nóis num tem ninguém!

Sempre falo pra muié
pra mó de sussegá o facho,
que acá nóis tem onde morá,
nóis cunhece os caminho
de í e de vortá,
i nem percisa pagá
pra interrá nossos morto...

Acá só percisa mermo
da mãozinha do santinho, -
u´a chuvinha por mês
já ia acabá c´us medo
de toda essa rente boa,
incrusive da muié
que num larga do meu pé.

...

Ói, meu santinho amado,
nóis veve de rezá procê,
mar reza só lava a alma,
o chão tem que sê moiado!
O beato insinô,
i nóis num aprendeu errado:
negá água é pecado!

Ói, meu santinho adorado,
si chuva é coisa de rico,
nóis vai morrê tudo seco,
que acá num tem rico naum.
Acá só tem quem num tem...
Só num farta é oraçaum...

ju rigoni (1992)

Visite também  Fundo de Mim II.


1 Comentários

Ingenuidade Santa




Já no mei do caminho,
vencido num par-de-arara,
paramu pra vê um rio
i nem mermo acreditamu...

Lá adondi nóis morava
os rio era tudo seco,
i nóis andava um montão
pra mó de ponhá u zóio
numa titica de água.

Fiquemo inté muntio tonto
de tanto e tanto oiá
as água do rio passano, passano,
tan mansim, quasin silêncio,
i o nosso estômbo
roncanu, roncanu,...
fazeno coro cum o ventu
i os eco do pensamento.

Murmuro,
murmuro,
murmuro...
Lá ia o rio passanu...
E nóis tudo ali,
oiano...

Murmuro,
murmuro,
murmuro...

As água era só murmuro,
carinhano os pedregúio,
cantanu canção prus peixe,
que ia nadanu, nadanu
pra longe de onde nóis tava, -
qui inté dava de espantá
o tanto que o estômbo roncava...

E quano chegamu a cidade
nóis era fome, cansaço,
e muntia dimiração...

Lá pro finá da tardinha,
subimo num morro aarto,
todo cheim de casinha,
pra mó de arrumá um canto
qui nóis pudesse pagá.

Um hômi muntio bãozinho
deu lugá pra nóis ficá,
mar disse que os menino
ia tê que trabaiá.

Ficamu tudo encantado, -
nem bem chegamu a cidade
já tinha amigo, posada,
i arguém já'rrumô trabaio!?...

Adispois de dois mês
nóis já tinha fogão,
cama, cadêra,
mesa, sofá, geladêra...
Fartava a televisaum!

Mar os minino já disse
que na semana que vem
nóis já vai tê a telinha, -
vai podê vê os pograma
que passa no tar cineminha.

Mar eles vai inscoiê
aquilo que nóis pode vê,
pruque ficarum sabeno
que tem uns tar de jorná
quinventa é muntia coisa...
Parece arte do demo!

Os minino vende uns pó
e uns fuminho que feeede...
Mar do que fumo de corda!
Trabaium de dia, de noite,
pra eles nunca tem hora...

E as minina sai de noite
- tan arrumadinha! -
pra vortá de manhãzinha
cum cara de transantônti.

Nossas fía inté parece
moças rica de revista, -
que aquele amigo bãozinho
deu prelas sapato, rôpa,
água de xêro, batão...

Mas a muié num conforma, -
qué que elas fica pur perto.
E os minino, tan esperto,
num cansa de expricá:
- Mainha, a cidade é grande!
Acá tudé diferente...

As criança é inteligente!

O fio mais véi é tão bão
qui num qué qui nóis trabaia, -
eu e a muié tamo a-tôa,
vida mar melhó de boa!...
Nóis só sai pra inhí nas missa,
que nosso sinhô merece
todas prece qui nóis sabe.

Mar hoje quano vortemo
os vizinho vinherum dizê
que os puliça veio aqui
pra perguntá dos minino...

E nóis nem se aperreô...
Pode vir quano quisé!
Pode sim. Pode vortá!
Quissé casa de famía!
Acá num tem cabra safado, -
c´as graça de nosso sinhô
só mora trabaiadô!...

ju rigoni (Sem registro de data)


Visite também
Fundo de Mim, Medo de Avião, Navegando...

quinta-feira

Piuí!




Pedro ia andando pela linha do trem pensando na vida. À frente os personagens do seu dia-a-dia. Geraldo, Maria, José, Afonso, Zefa...

Por onde andaria a Zefa? Da última vez que a viu, estava lá, no bailinho de sábado, linda!, e sem se dar conta de quanto estrago sua beleza era capaz de causar. Os longos e ondulados cabelos caindo à cintura fininha do corpo bem talhado, firme, malhado pelo trabalho na roça, - que nem o das moças da cidade que, nos feriados, apareciam nas fazendas ao redor. "Eita cabocla danada de bonita, - pensava -, uma potranca! Mas, uma santinha..."

Agora pisava, um por um, os dormentes, levantando ora uma, ora outra perna, como criança a pular amarelinha. Vez por outra espantava com as mãos os mosquitos que, ao entardecer, eram negras nuvens a deslocar-se pra lá e pra cá em busca de sangue, no mato alto ao pé da montanha que erguia-se ao lado da linha férrea.

- Plaft! - Bandidinhos... Vão picar a mãe!
- Plaft! Plaft!

Zefa, há muito, habitava-lhe os sonhos. Parecia uma Nossa Senhora! Tão linda, coberta por um manto azul, o olhar meigo, terno, cálido, - as palmas das mãos de onde saíam raios de luz, viradas para ele como a dizer "Vem!". Bastava dormir para que ela lhe aparecesse, sempre assim. Geraldo seu melhor amigo, a quem contava todos os seus mais íntimos segredos, achava que ela aparecia-lhe como uma santa, porque em sua mente sabia que era tão difícil ser notado por Zefa quanto ter atendido um pedido qualquer dirigido a uma divindade.

- Plaft! - Merda! Tô virando uma peneira. Plaft! Plaft! Plaft!

Ele deixa a linha do trem em direção à auto-estrada onde a maioria dos carros passa como se fossem levantar vôo. No acostamento, já arrebentando o capeamento fininho do asfalto, muito mato. Só mato.

- Plaft! Plaft! Plaft!
- Ê sangue bão, esse meu...
- Plaft!

Cortando a pista asfaltada, uma estradinha de terra por onde ele vai se embrenhando. Vai pensando na Zefa sob a trilha sonora de mosquitos que, agora vêm em nuvens cada vez mais densas. Tão densas quanto os cílios da amada. "Que pestanão!", ia ele pensando quando notou lá na frente um diferente amarfanhar de mato que, assim, na luz tênue que se configura entre a despedida do sol e a chegada da noite, pareceu-lhe ainda mais estranho.

- Plaft! Plaft! Plaft!
- Ai! Ui!
- Plaft! Plaft! Plaft!

Resolveu xeretar e meteu-se mato adentro a seguir a triha recém engendrada. Mais adiante seus olhos encontraram alguma coisa ou alguém deitado ao chão. "Virgem santíssima!", exclamou para si mesmo. "É gente! Tem gente caída ali no chão..." Antes que a noite chegasse em definitivo ele correu para vencer os poucos metros que o separavam do lugarejo onde morava e conseguir ajuda.

- Valha-me Nossa Senhora!
- Plaft!

Tochas em punho, Pedro e os amigos retornaram o mais rápido possível ao local. Vasculharam tudo. O mato continuava lá, todo em desalinho, mas... Não havia ninguém. Nem mesmo os mosquitos. Nada. As pessoas olhavam-no como a um estranho, embora ele afirmasse a todo momento que fora ali que vira o corpo caído ao chão. Aos poucos, um a um, todos se retiraram. Sobraram apenas Pedro e o amigo Geraldo.

- Que é que te deu, ômi?
- Você também não acredita em mim?
- Cê é bem imaginoso, convenhamos... Vive sonhando... Tá sempre no mundo da lua.
- Eu não iria chamar todo mundo se não tivesse visto mesmo alguém ali. Bem aqui, ó!
- Pedro deu três ou quatro passos e colocou-se exatamente no lugar onde estava antes o tal corpo.
- Homem ou mulher?
- O quê?
- Essa pessoa pessoa caída ao chão que você viu era um homem ou uma mulher?
- Ih, sabe que eu não sei...

Geraldo olha mais desconfiado ainda para Pedro que reage imediatamente:

- Já era quase noite. Naquele lusco-fusco... eu vi a pessoa há alguns metros, não cheguei muito perto. Além de atordoado por causa das nuvens de mosquitos, tratei de correr para buscar ajuda.
- Tava vivo ou morto?
- Pois se acabei de dizer que não cheguei perto o suficiente... como posso saber?... - Hummmm... - Que diabo de amigo é você que não acredita em mim?... -, resmungava Pedro enquanto tomavam o caminho de casa.
- Difícil, né?
- Cruz Credo, Geraldo! Vai ver que era alma do outro mundo... Vamos falar na minha Zefa, a minha santinha, que é bem melhor.
- Santa é a sua imaginação, meu amigo...

O trem apitou concordando com a declaração de Geraldo.

Não muito longe dali, Zefa ofegava correndo pelo acostamento. As mãos que, nos sonhos de Pedro convidavam-no, agora apertavam as de um outro alguém que namorava em segredo, e que sua família odiava tanto que era preciso vê-lo às escondidas. Hoje, inclusive, Zefa demorara muito e ele, que andara bebendo umas e outras, adormecera no mato esperando-a.

Novamente o apito do trem vindo de lá, bem longe...

ju rigoni (sem registro de data)


Comentários


Visite também Fundo de Mim.

sexta-feira

Natá



Indé novembro
e o estômbo,
cheio de espaço e de ronco,
sente o xêro de dezembro...

Hummmm! Coisa mais boa!...
Pru mim e pru mínia famía
Nossu Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...

No Natá se come muntio,
todo mundo qué ajudá, -
o pobrema é os ôtro dia...

É só no Natá que nóis pode
enchê muntio bem as pança.
Nos ôtro dia do ano
nóis cata resto no lixo,
nóis come terra, rebôco,
nóis põe carqué coisa na boca,
e mastiga o que num tem,
que graças a Nosso Sinhô,
imaginaçaum num farta
i inté faz muntio bem
pro má de comida parca.

No Natá se come muntio,
graças a vige Maria
e o anjo anunciadô, -
graças a nosso sinhô!

As pança é só verme filiz...

As criança fica dioida
só de vê as comidada,
inda ganhum brinquedo, -
livrim, boneca, bola...
é uma aligria danada!

O pobrema dos minino
é qui eles num sabe brincá;
ganha os brinquedo em dezembro,
veve cum eles na boca,
e nem bem é feverêro
e já tudo comêrum!

O Natá é cumê bem
e rezá pra chegá vivo
no Natá do ano que vem...

Pru mim e pru mínia famía,
Nosso Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...

ju rigoni (1993)


1 Comentários


Visite também  Fundo de Mim II e Medo de Avião.

terça-feira

Tudo Como Dantes...



O olhar acurado de Adriana Mattoso.
(Clique na foto para vê-la em detalhes)

sábado

Melado, Queijo e Rapadura

Cé azú, brasa no chão.
Inté a parca verdança
tem pó vermeio grudado
nos talo cor de esperança.
Os cacto espinhado,
as pôca fôia das árve,
têm a cor da chaga viva.

As ave - ocê tem razão -,
num tenho visto mais não!

Os minino tão magrim...
Inguá gado em pasto seco.
As pessoa, gente boa,
que nóis pode confiá,
tudo cheim d'esperança,
qui nem quando eu, mais moço,
aresorvi me mudá.

Inda tem porcissão
pra mó de agradá os santo!

Mainha, munto veinha,
já num pode mais andá.
Painho, no oitão da casa,
os óio pregado na estrada,
inda parece esperá...
Os mano tudo casado,
- as muié embarrigada -,
é dez minino pra cada.

As sina indé pesada,
as pessoa é bem mais leve.
Os gesto num é tão largo
feito é lá na cidade,
mas tumém nem é perciso...
Os passo indé curtim,
o tempo indé devagá,
só a fome anda dipressa:
matô o Zé Zeferino,
e a famía todinha
do Antonho Antonino.

Inté falei pros amigo
da tar crise do governo.
Acharum mar munta graça...
Num sabem o que é cpi,
persidente, inmunidade,
- pensarum fosse comida!
E quano garrei a expricá
disserum que vortei letrado.
Só conhecem deputado
que aparece correno,
quando a chuva se recolhe,
pra dá farinha por voto
e levá nossas minina.

Quano contei dos mião
que ovi na televisão,
os óio deste tamanho!,
acharum qu’io endioidiava,
qu’io tinha fumado as erva
que sobra lá nas carçada
da cidade indinherada:
- Arguém é tão rico, ó xente?!

Quano tem munta disgraça
tem uns repórte que passa
c'us saquinho do miojo,
aquele macarrãozinho
que vende lá nus mercado,
e que eles distribui
em troca dum cunversê
e dumas pose engraçada
pras máquina de retrato
e pros firme que eles faz.

Debaixo do só ardente
munta casa que é de barro
arriba dos quengo da gente,
dano sustança a minino
que esfarofa as parede.

- Sai da rede e faz a mala!
Vamos embora, afilhado!
Por aqui nada mudou,
vamos voltar pra cidade.
Você já matou a saudade.

Num carece convencê
daquilo que eu posso vê
c'os óio que esta terra
cum certeza há de cumê.

Madrinha, pensei bastante,
e num vô vortá mais não.
Minha raiz tá fincada.
I'o num quero mais fugi
dos traçado do distino.
A cidade é ôtro mundo,
mainha diz que é do demo...

Ocê vai e eu fico
inté quando deus quisé...
Cansei de virá cimento!
Cumê má, chorá, rezá...
Meu povo sabe de có,
num carece decorá.

Di veiz em quando ocê vem
pra vê nóis e proseá.
Num traiz notiça ruim
que nóis tamu protegido
daqueles tiro bandido
que garra gente na rua.
Acá num percisa voto
pra tê ou num tê revólvi,
us cabra-macho safado
aqui nóis passa na faca
i os carcará faz o resto.

Traiz só as coisa bonita,
as coisa que vale a pena,
as coisa do coração,
que, na nossa inguinorânça,
nóis sabe bem o que é bão!

Às veiz nóis se faz de bôbo
mas sabe que um mais um
vai sê sempi menos um.
Nóis veve fazeno conta
de somá, diminuí...
Nóis divedi munta coisa,
inté o que nóis num tem.
Mutipricá? Só a fome,
a sede, o cansaço da lida,
munta oração, e a esperança
que deita cum nóis na rede.

Na cidade - isso eu vi! -
ninguém sabe dividi.
Adispois, nóis é que é burro!

Vá, madrinha querida,
veve lá a tua vida,
aquela vida currida,
que eu por aqui vô parano,
tratano de me acomodá
num canto do chão, na lida,
na pureza, na lindeza
do lugá onde eu narci.

Ocê iscolheu sofrê,
nóis veve pra contemprá...

- Vá cum deus e nossa sinhora!

ju rigoni (em set/2005)

N.A. Transcorrendo num cenário provavelmente bem conhecido, Melado, Queijo e Rapadura tenta misturar num mesmo texto a sedução, a beleza dos falares de algumas regiões do Brasil.


Comentários
Visite também , Fundo de Mim II e Medo de Avião.