"E vendo e ouvindo esse campeiro tão íntimo da terra e da vida, tão iluminado pela sabedoria do coração... você compreenderá que o homem brasileiro é milagrosamente um só, de norte a sul, de leste a oeste, a despeito de todas as distâncias geográficas - um só no que possui de essencial: a cordialidade, o horror à violência, a capacidade de dar-se, e também de rir da vida, dos outros e de si mesmo." Érico Veríssimo
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quinta-feira
Piuí!
Pedro ia andando pela linha do trem pensando na vida. À frente os personagens do seu dia-a-dia. Geraldo, Maria, José, Afonso, Zefa...
Por onde andaria a Zefa? Da última vez que a viu, estava lá, no bailinho de sábado, linda!, e sem se dar conta de quanto estrago sua beleza era capaz de causar. Os longos e ondulados cabelos caindo à cintura fininha do corpo bem talhado, firme, malhado pelo trabalho na roça, - que nem o das moças da cidade que, nos feriados, apareciam nas fazendas ao redor. "Eita cabocla danada de bonita, - pensava -, uma potranca! Mas, uma santinha..."
Agora pisava, um por um, os dormentes, levantando ora uma, ora outra perna, como criança a pular amarelinha. Vez por outra espantava com as mãos os mosquitos que, ao entardecer, eram negras nuvens a deslocar-se pra lá e pra cá em busca de sangue, no mato alto ao pé da montanha que erguia-se ao lado da linha férrea.
- Plaft! - Bandidinhos... Vão picar a mãe!
- Plaft! Plaft!
Zefa, há muito, habitava-lhe os sonhos. Parecia uma Nossa Senhora! Tão linda, coberta por um manto azul, o olhar meigo, terno, cálido, - as palmas das mãos de onde saíam raios de luz, viradas para ele como a dizer "Vem!". Bastava dormir para que ela lhe aparecesse, sempre assim. Geraldo seu melhor amigo, a quem contava todos os seus mais íntimos segredos, achava que ela aparecia-lhe como uma santa, porque em sua mente sabia que era tão difícil ser notado por Zefa quanto ter atendido um pedido qualquer dirigido a uma divindade.
- Plaft! - Merda! Tô virando uma peneira. Plaft! Plaft! Plaft!
Ele deixa a linha do trem em direção à auto-estrada onde a maioria dos carros passa como se fossem levantar vôo. No acostamento, já arrebentando o capeamento fininho do asfalto, muito mato. Só mato.
- Plaft! Plaft! Plaft!
- Ê sangue bão, esse meu...
- Plaft!
Cortando a pista asfaltada, uma estradinha de terra por onde ele vai se embrenhando. Vai pensando na Zefa sob a trilha sonora de mosquitos que, agora vêm em nuvens cada vez mais densas. Tão densas quanto os cílios da amada. "Que pestanão!", ia ele pensando quando notou lá na frente um diferente amarfanhar de mato que, assim, na luz tênue que se configura entre a despedida do sol e a chegada da noite, pareceu-lhe ainda mais estranho.
- Plaft! Plaft! Plaft!
- Ai! Ui!
- Plaft! Plaft! Plaft!
Resolveu xeretar e meteu-se mato adentro a seguir a triha recém engendrada. Mais adiante seus olhos encontraram alguma coisa ou alguém deitado ao chão. "Virgem santíssima!", exclamou para si mesmo. "É gente! Tem gente caída ali no chão..." Antes que a noite chegasse em definitivo ele correu para vencer os poucos metros que o separavam do lugarejo onde morava e conseguir ajuda.
- Valha-me Nossa Senhora!
- Plaft!
Tochas em punho, Pedro e os amigos retornaram o mais rápido possível ao local. Vasculharam tudo. O mato continuava lá, todo em desalinho, mas... Não havia ninguém. Nem mesmo os mosquitos. Nada. As pessoas olhavam-no como a um estranho, embora ele afirmasse a todo momento que fora ali que vira o corpo caído ao chão. Aos poucos, um a um, todos se retiraram. Sobraram apenas Pedro e o amigo Geraldo.
- Que é que te deu, ômi?
- Você também não acredita em mim?
- Cê é bem imaginoso, convenhamos... Vive sonhando... Tá sempre no mundo da lua.
- Eu não iria chamar todo mundo se não tivesse visto mesmo alguém ali. Bem aqui, ó!
- Pedro deu três ou quatro passos e colocou-se exatamente no lugar onde estava antes o tal corpo.
- Homem ou mulher?
- O quê?
- Essa pessoa pessoa caída ao chão que você viu era um homem ou uma mulher?
- Ih, sabe que eu não sei...
Geraldo olha mais desconfiado ainda para Pedro que reage imediatamente:
- Já era quase noite. Naquele lusco-fusco... eu vi a pessoa há alguns metros, não cheguei muito perto. Além de atordoado por causa das nuvens de mosquitos, tratei de correr para buscar ajuda.
- Tava vivo ou morto?
- Pois se acabei de dizer que não cheguei perto o suficiente... como posso saber?... - Hummmm... - Que diabo de amigo é você que não acredita em mim?... -, resmungava Pedro enquanto tomavam o caminho de casa.
- Difícil, né?
- Cruz Credo, Geraldo! Vai ver que era alma do outro mundo... Vamos falar na minha Zefa, a minha santinha, que é bem melhor.
- Santa é a sua imaginação, meu amigo...
O trem apitou concordando com a declaração de Geraldo.
Não muito longe dali, Zefa ofegava correndo pelo acostamento. As mãos que, nos sonhos de Pedro convidavam-no, agora apertavam as de um outro alguém que namorava em segredo, e que sua família odiava tanto que era preciso vê-lo às escondidas. Hoje, inclusive, Zefa demorara muito e ele, que andara bebendo umas e outras, adormecera no mato esperando-a.
Novamente o apito do trem vindo de lá, bem longe...
ju rigoni (sem registro de data)
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sábado
A Rezadeira
- O que é que eu coso?...
- Nervo torcido, osso quebrado...
- bzz, bzz, bzz, - murmura a rezadeira sem que se possa distinguir qualquer palavra da oração salvadora, exceto a pergunta repetida inúmeras vezes. Enquanto reza, vai costurando com agulha e linha, - pontos aleatórios -, um pedaço de tecido bem branquinho.
Quando termina a oração deposita o tal paninho aos pés da imagem de São Jorge, a maior no oratório onde também estão, além de outras imagens, um copo com água e duas velas acesas. Orienta a mãe do menino a trazê-lo por mais dois dias. Segundo ela, são necessários três para que a reza surta algum efeito.
- Quanto é?
- Nada não, filha. Vai com Deus!
- Brigada, Dona Mariazinha, - diz a mulher agarrando e beijando-lhe uma das mãos.
- Pede a bença pra ela, Joãozinho!
- Bença d. Mariazinha?
- Deus abençôe ocê, meu menino, diz ela afagando a criança.
Mariazinha, os cabelos branquinhos e começando a rarear, acompanha os dois até o portão e se assusta com a quantidade de pessoas que ainda fazem fila em frente a casa.
- Vô atendê só mais dois. Ave Maria! Hoje num dá mais não. Tô cansada...
Ouve-se um certo burburinho de decepção, mas a palavra de Mariazinha é lei. E ela nunca abre exceções, a não ser para casos graves.
Contam que Mariazinha é medium-ouvinte. Além de rezar, ela muitas vezes prescreve o que "ouve": remédios feitos à base de ervas, raízes, cascas de árvores, sementes e todo um arsenal colocado à sua disposição pela natureza.
Ganhou fama quando um político muito conhecido, desenganado por médicos brasileiros e estrangeiros, veio até ela.
- ... dia, meu filho. Por que veio me procurar?
- Um tumor que cresce desenfreadamente e já tem o tamanho de uma maçã.
- Onde é que tá isso, meu filho?
- Exatamente aqui. Se a senhora colocar as mãos vai senti-lo em meio as costelas.
Mariazinha faz ligeira pressão sobre o lugar indicado e, quase que imediatamente, parece entrar num transe.
- A senhora pode senti-lo?
- Sssssss! - fez Mariazinha, olhos semicerrados, prestando muita atenção a alguém que ele não podia ver ou escutar.
Mariazinha fica assim durante uns dez minutos. Depois, bocejando, e com jeito de quem está extremamente cansada:
- Ô meu filho, você esquenta muito a cabeça... Num pode ser assim não, sabe?
- É a vida, d. Mariazinha... Mas... e então? A senhora tem algum remédio pra mim? A senhora acha que eu ainda saio dessa?...
- Depende mais docê do que de mim. Cê quer sair dessa?- Que pergunta! Rodei o mundo antes de chegar até aqui.
- É... É assim mesmo. Todo mundo passa a vida procurando coisa que tá sempre mais perto do que a gente imagina.
- E então?...
- Cê é mesmo nervoso, hein... Olha, por hoje é só isso. Cê vai voltar a mim daqui a exatamente sete dias. Só então vou ter o seu remedinho pronto.
- Será impossível. Há uma cirurgia já marcada para segunda-feira. Eles vão abrir e extirpar o tumor.
- Não vão não. Se você operar antes, meu remédio não terá qualquer efeito.
O homem parecia estupefato. Uma mulher humilde, sem instrução, morando no meio do mato, falava-lhe com tal autoridade!... O que lhe dava tanta certeza? Como podia ela achar que o seu "remedinho" faria por ele o que os maiores especialistas do mundo não conseguiram? Que pessoa era aquela? Pediu a conta antes de despedir-se.
- Num é nada não, meu filho. Vai com Deus!
...
- Eu estou doido, - disse à esposa quando entrou no carro. Não sei como deixei que você me convencesse a vir até aqui...
E a mulher cheia de fé:- Ela pode ser simplória, mas dizem que seus remédios são poderosos.
Sete dias mais tarde, e contra todas as previsões, o homem voltou. Mariazinha entregou a ele um vidrinho contendo um líquido escuro e disse-lhe que tomasse 4 gotas num pouco de água, sempre depois das refeições, durante dez dias. O homem queria que d.Mariazinha colocasse de novo a mão sobre o local onde estava o tumor para ver como havia crescido nos últimos dias. Mas a mulher não demonstrou o menor interesse. Disse-lhe apenas:
- Vá para casa e, hoje à noite, tome a primeira dose.
Contam que, quinze dias depois, quando o homem foi examinado o espanto foi geral. O tumor não estava mais lá. Ele fez e refez exames porque até mesmo os médicos não conseguiam crer no que havia acontecido.
Desde então, dona Mariazinha perdeu o sossego. Nunca mais descansou. Além das consultas, das rezas, sempre havia aqueles jornalistas chatos que ela botava a correr de vassoura nas mãos.
ju rigoni (sem registro de data)
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