"E vendo e ouvindo esse campeiro tão íntimo da terra e da vida, tão iluminado pela sabedoria do coração... você compreenderá que o homem brasileiro é milagrosamente um só, de norte a sul, de leste a oeste, a despeito de todas as distâncias geográficas - um só no que possui de essencial: a cordialidade, o horror à violência, a capacidade de dar-se, e também de rir da vida, dos outros e de si mesmo." Érico Veríssimo
domingo
Cardo Azedo
Nóis já deve munta grana
nas cantina do patrão,
i quanto mais nóis trabaia,
mais nóis tem a ceteza:
num vai dar pra pagá não!
Nóis já nem vai pra casa,
dorme nas prantação,
nas lona de alugué,
tudo cheim de buraco, -
inté dá pra vê o cé...
Si tem chuva nóis se móia,
si invez de chuva tem lua,
nóis lembra que a nossa lida
inté já foi mar bunita...
Nóis tem sardade da vida
que nóis tinha antigamente...
Nos sábos, era só viola...
tocá e cantá na fêra
alegranu os pessoá,
i os minino recoieno,
cheim de sastisfação,
os trocado que o povo
botava nas suas mão.
No finá da tardinha
a muié comprava o sá,
o fubá e a farínia,
i às veiz inté sobrava
uns quequé pra rapadura,
água de xêro i pinga
pra mó de "enchê as muringa".
No redó da tapera
nóis prantava mandioca
i ia viveno a vida,
qui num era muntio boa...
mar era bem mais filiz.
Agora, tan longe de casa,
nóis dorme nas prantação,
nas lona de alugué,
tudo cheim de buraco
por onde iscorre a chuva, -
água limpa pra bebê.
I si tem lua pra oiá
é soniá, soniá, soniá...
qui é só o qui nóis pode fazê
sem sê obrigadu a pagá...
Di sigunda a sigunda
é prantá i derribá cana
no fio dos nosso facão,
qui uns chama de pexêra
i uns ôtro di catana.
Inhantes do galo cantá
nóis já tá tudo de pé, -
hômi, criança, muié -,
ni dá tempo di rezá...
Mar Nosso Sinhô predôa
i sêmpi abençoa nóis tudo.
Nóis num reza mais nóis sônia,
cada sôniu tan munito
qu´inté parece uma reza...
As carça e as manga cumprida,
i ôtra brusa pru baixo,
proteção pru pescoço,
boné, duas meia furada,
i pano grosso na canela,
que Deus veve no cé,
i o diabo da peçonha
veve mermo aqui na terra;
i é priciso atenção
cum a escapada dos facão.
O só arriba dos quengo
i nóis imbaixo, no corte,...
Os mais forte ganhum mais,
intonce acá num é lugá
pra quem num tem braço forte.
Nóis semu o que pranta, o que cóie,
e tumém o qui queima i recóie, -
nóis semu os burro de carga
aqui dos canaviá.
Nóis nunca tem muntia iscôia...
Ô nóis morre de fome,
ô de tanto trabaiá.
Mar né praga do cé não,
pruque Deus nosso sinhô
nunca se aperreô
pro causo de nóis num tê tempo
pras reza do pensamento.
Di noite, nóis tudo cansado,
os corpo sentinu as dô,
nóis óia pelos buraco
as estrelinha brilhanu,
e sônia, sônia, sônia...
Pruquê nóis ainda sônia
cada sôniu tan munito
qu´ inté parece oração!
I sônia cum o qui quisé...
qu´in sôniu num tem patrão.
ju rigoni (2006)
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sexta-feira
Natá
Indé novembro
e o estômbo,
cheio de espaço e de ronco,
sente o xêro de dezembro...
Hummmm! Coisa mais boa!...
Pru mim e pru mínia famía
Nossu Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...
No Natá se come muntio,
todo mundo qué ajudá, -
o pobrema é os ôtro dia...
É só no Natá que nóis pode
enchê muntio bem as pança.
Nos ôtro dia do ano
nóis cata resto no lixo,
nóis come terra, rebôco,
nóis põe carqué coisa na boca,
e mastiga o que num tem,
que graças a Nosso Sinhô,
imaginaçaum num farta
i inté faz muntio bem
pro má de comida parca.
No Natá se come muntio,
graças a vige Maria
e o anjo anunciadô, -
graças a nosso sinhô!
As pança é só verme filiz...
As criança fica dioida
só de vê as comidada,
inda ganhum brinquedo, -
livrim, boneca, bola...
é uma aligria danada!
O pobrema dos minino
é qui eles num sabe brincá;
ganha os brinquedo em dezembro,
veve cum eles na boca,
e nem bem é feverêro
e já tudo comêrum!
O Natá é cumê bem
e rezá pra chegá vivo
no Natá do ano que vem...
Pru mim e pru mínia famía,
Nosso Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...
ju rigoni (1993)
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